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Thursday, March 3, 2011

pertencer ao que não pertence mais ninguém


pertencer a algo maior, photo da casa

pertencer é uma das mais básicas condições humanas. uma daquelas necessidades que nos influenciam de tal forma que chegamos mesmo a abdicar das nossas mais profundas crenças. no filme Human Nature de Charlie Kaufman uma das protagonistas abandona a sua natureza selvagem, tornando-se mesmo ajudante de um laboratório, por amor. o amor é essa manifestação máxima da necessidade de determinada pessoa. mas nem sempre precisamos de uma só pessoa. às vezes é respeito, outras reconhecimento, outras carinho, outras simples olhares, mas essa necessidade de contacto é das que mais se manifesta. e arrisco-me a dizer que se manifesta em todos os seres humanos.

para pertencer é necessário abdicar-se da identidade. é um estorvo à comunicação muito grande. opiniões fortes, posições vincadas, pouca tolerância. é isso que faz a identidade e é isso que desfaz as relações interpessoais. noutro filme de Kaufman, Being John Malkovich, vemos como uma personagem assume a identidade de Malko de forma a poder enamorar-se com a mulher por quem estava obcecado. nem todas as as relações humanas precisam de abdicação. mas quando as pessoas são mais duras, mais autênticas, torna-se complicado estabelecer-se um diálogo.

a massa, esse ser enorme do qual nós somos pequenas células, precisa que nós deixemos de ser nós. a existência não faz qualquer tipo de sentido, pelo menos a nossa. pode fazer, se formos nós próprios. mas aí, estamos a destruir-nos, a lançar-nos ao vácuo da velha e miserável solidão.

Monday, February 14, 2011

Charlie Kaufman e Michel Gondry| A Natureza Humana| 2001


mais um filme nascido da pena de Charlie Kaufman. mais um filme genial. a realização de Michel Gondry assenta-lhe que nem uma luva (especialmente aqueles aparentes defeitos) num filme que retrata de uma forma espantosa a natureza humana. como em qualquer filme de Kaufman por trás de uma ideia invulgar (ainda que neste caso não tão original como noutros filmes) surgem diálogos, relacionamentos e contactos humanos que transformam uma comédia bem disposta num filme perturbante em que os lados mais fracos do homem, o desejo à adaptação, a indecisão, a traição são postos em exposição. tudo isto a partir de uma mulher com muito pêlo, um cientista comportamental e um selvagem educado pelo pai para ser um macaco. um filme obrigatório para quem gosta de psicologia.

Nathan Bronfman: Remember, when in doubt, don't ever do what you really want to do.
Lila Jute: That's the key.

Nathan Bronfman: What is love anyway? From my new vantage point, I realize that love is nothing more than a messy conglomeration of need, desperation, fear of death and insecurity about penis size.

Tuesday, January 4, 2011

Synecdoche, New York - Charlie Kaufman




ao longo das últimas semanas fui-me rendendo a Charlie Kaufman. mas nenhum dos outros filmes que já vi (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, Adaptation e Being John Malkovich) me preparou para isto (ainda que o meu favorito continue a ser o do malkovich).

na sua estreia como realizador Kaufman apresenta o seu mais esquizofrénico guião, com jogos de identidade, obsessões, morte e medo dela. no fundo, os ingredientes são sempre os mesmos, mas a forma como os utiliza é sempre nova e genial. neste filme, Caden (interpretado pelo brilhante Philip Seymour-Hofmann) é um encenador de teatro e hipocondríaco que ao mesmo tempo que é abandonado pela mulher recebe um prémio que o faz decidir criar uma peça de teatro gigantesca, a fim de ser recordado após a morte. num armazém, decide construir uma réplica de nova iorque (que conta com o próprio armazém) arranjando personagens que fizessem dele e dos seus conhecidos. o projecto arrasta-se por décadas.

é um filme complexo. um dos filmes mais complexos que já vi, talvez a par de Dr. Parnassus de Terry Gilliam, (Inception é brincadeira de crianças ao lado deste), onde o tempo quase não existe, a vida de Caden mistura-se com a peça e os actores se confundem com as pessoas que lhes deram origem. é um filme fora de série, provavelmente o mais genial que já vi, motivo pelo qual nem sei o que pensar.

Sunday, January 2, 2011

Adaptation



nem de propósito: ontem, na rtp2, começou a exibição de Adaptation, realizado por Spike Jonze, escrito por Charlie Kaufman e Donald Kaufman a partir de um livro de Susan Orlean. o filme parte da filmagem do filme Being John Malkovich para conhecermos a situação de Charlie Kaufman: um argumentista que, num difícil período da sua vida, desesperado por culpa da sua falta de capacidade para se sociabilizar, aceita trabalhar num guião a partir de um livro sobre orquídeas e seus ladrões de Susan Orlean. entra em desespero por não conseguir escrevê-lo, enquanto o seu irmão gémeo, Donald, decide dedicar-se também ele a escrever guiões, tendo bastante sucesso. a certa altura, Charlie pede-lhe ajuda, e ambos investigam o que está por trás de toda aquela paixão por orquídeas de Susan. é esse percurso que Charlie decide escrever.

é um filme sobre a adaptação de Charlie Kaufman, um misto de realidade e ficção, com as orquídeas no centro da acção. de realçar o facto de Donald Kaufman, o gémeo ficcional de Charlie, ter sido incluído nos créditos e ter sido, juntamente com o irmão, nomeado para um óscar.

Saturday, January 1, 2011

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Brincando com o conceito de identidade, explorando ao máximo obsessões, Kaufman escreveu, aqui, o mais genial dos seus guiões. Que posso mais dizer? Esmagou-me completamente... Brilhantes interpretações, brilhante direcção, brilhante música. Brilhante conceito. Brilhante final. Brilhante.

Saturday, December 25, 2010

Eternal Inception of the Spotless Mind

Recentemente um tal filme denominado de Inception tem causado burburinho. Complexo, confuso, enigmático e genial, é assim descrito, aquele que já é considerado, pelos users do imdb, o 8º (creio eu. que raio de blog em que o autor nem se dá ao trabalho de fundamentar o seu texto) melhor filme de sempre. É um filme francamente bom, mas que a meu ver, a esse nível não passa a mediocridade. Numa linha semelhante, houve também um outro filme, esse genial a meu ver, desde o conceito a toda a construção do filme: Eternal Sunshine of the Spotless Mind.

Tal como Inception este filme conta com uma construção de imagem genial. Vemos a mente da personagem interpretada por Jim Carrey (sim, Jim Carrey, o palhaço da companhia, aqui, numa brilhante interpretação maioritariamente dramática) apagar tudo o que pertence a um amor dramático com a peronagem de Kate Winslet. É, sobretudo, um filme de amor. É um filme esquizofrénico, de um homem que depois de ter assinado um contrato, luta com todas as forças que tem contra a sua mente, a fim de não perder as memórias que tem da sua outra metade.

O filme teve uma recepção muito boa, destacando-se a atribuição de um Óscar para melhor Argumento Original. Se Michel Gondry tem aqui uma bela peça de realização, a escrita de Kaufman é genial, ele que também escreveu Being John Malkovich e Inadaptado. O título teve origem no poema Eloisa to Abelard de Alexander Pope:

How happy is the blameless vestal's lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray'r accepted, and each wish resign'd ..